FISL: o que ficou depois do fim do Fórum Internacional Software Livre?
Há eventos de tecnologia que terminam quando a última palestra acaba.
E há eventos que continuam existindo na memória de quem participou deles.
Para mim, o Fórum Internacional Software Livre (FISL) pertence à segunda categoria.
Durante muitos anos, o FISL foi muito mais do que um evento sobre Linux, programação ou Software Livre. Ele representava um momento em que pessoas com diferentes experiências profissionais e acadêmicas se encontravam para discutir tecnologia, conhecimento, liberdade, inovação e, principalmente, o futuro.
Hoje, olhando para trás, uma pergunta continua me incomodando:
O que aconteceu com o FISL, e o que aconteceu com o espaço que ele ocupava?
O FISL era diferente
Quem não viveu aquela época talvez tenha dificuldade para compreender o que o FISL representava.
Hoje temos uma quantidade enorme de eventos, comunidades, lives, podcasts, conferências online, grupos de discussão e redes sociais.
Mas havia algo especial em reunir, no mesmo lugar, desenvolvedores, estudantes, pesquisadores, professores, profissionais de TI, empresas, gestores públicos e integrantes de comunidades de Software Livre.
O FISL conseguia fazer isso.
E conseguia fazer em uma escala impressionante.
A edição de 2010, por exemplo, reuniu cerca de 7.500 participantes e mais de 500 atividades.
Não era apenas uma conferência.
Era um ponto de encontro.
Era possível entrar em uma sala para assistir a uma palestra sobre Linux e, algumas horas depois, estar discutindo banco de dados, governo eletrônico, segurança, educação, cultura livre ou desenvolvimento de software com pessoas que você nunca tinha visto antes.
Essa mistura era parte da riqueza do evento.
O Software Livre tinha uma identidade muito forte
Existe outra coisa que, na minha opinião, mudou bastante de lá para cá.
Naquele período, Software Livre era também uma identidade.
Havia uma sensação muito forte de pertencimento.
GNU/Linux, Debian, Ubuntu, PostgreSQL, PHP, Python, GNOME, KDE e tantos outros projetos não eram apenas tecnologias que utilizávamos.
Eram comunidades.
E essas comunidades tinham pessoas dispostas a ensinar, compartilhar conhecimento, desenvolver, documentar, traduzir, organizar eventos e ajudar quem estava começando.
Para quem trabalha com tecnologia, isso tinha um valor enorme.
Aprendíamos tecnologia, mas também aprendíamos uma maneira diferente de pensar sobre ela.
A ideia de que conhecimento poderia ser compartilhado.
De que software poderia ser estudado e modificado.
De que uma comunidade poderia construir algo que nenhuma empresa isoladamente conseguiria construir da mesma maneira.
E então o FISL começou a desaparecer
O fim não aconteceu de maneira repentina.
O evento enfrentou dificuldades financeiras e organizacionais ao longo de seus últimos anos.
Em 2017, uma edição chegou a ser cancelada por falta de patrocínio suficiente.
O FISL retornou em 2018, mas aquela acabou sendo sua última edição.
E talvez seja justamente isso que torne a história um pouco melancólica.
Não houve um grande momento cinematográfico de encerramento.
Não houve necessariamente uma cerimônia dizendo:
“Esta é a última vez que estaremos aqui.”
Simplesmente, o tempo passou.
O mundo mudou.
As prioridades mudaram.
As comunidades mudaram.
E aquele grande ponto de encontro deixou de acontecer.
Mas o Software Livre não acabou
Essa é uma distinção importante.
O FISL acabou. O Software Livre não.
Na verdade, olhando para a tecnologia atual, fica difícil argumentar que as ideias associadas ao movimento perderam importância.
Muito pelo contrário.
Hoje utilizamos diariamente tecnologias abertas em praticamente todas as áreas da computação.
Servidores.
Bancos de dados.
Containers.
Cloud computing.
Inteligência Artificial.
Ciência de Dados.
Geotecnologias.
Sistemas operacionais.
Ferramentas de desenvolvimento.
Infraestrutura.
Segurança.
E até mesmo boa parte da infraestrutura que sustenta a própria Internet.
O que mudou foi a forma como essas tecnologias passaram a ser percebidas.
O debate deixou de ser exclusivamente:
“Software Livre versus software proprietário”.
Hoje precisamos discutir também:
Quem controla os dados?
Quem controla a infraestrutura?
Existe dependência de um fornecedor?
Podemos auditar a tecnologia?
Podemos migrar nossos dados?
Temos soberania tecnológica?
Como funcionam os modelos de Inteligência Artificial que utilizamos?
O que significa “aberto” quando estamos falando de IA?
Essas perguntas me parecem extremamente atuais.
Talvez o movimento tenha se fragmentado
Quando penso no FISL hoje, tenho a impressão de que uma parte importante do que aconteceu foi uma fragmentação.
O que antes cabia em um grande evento passou a existir em dezenas de comunidades e eventos diferentes.
Temos eventos de:
- Software Livre;
- Open Source;
- Inteligência Artificial;
- ciência de dados;
- segurança;
- desenvolvimento;
- cloud;
- DevOps;
- geotecnologias;
- ciência aberta;
- dados abertos;
- governo digital;
- hardware aberto.
Cada comunidade possui sua própria agenda.
Isso é positivo por um lado.
Mas existe uma consequência.
Perdemos um pouco do espaço onde todas essas comunidades podiam se encontrar.
E essa talvez seja uma das maiores ausências deixadas pelo FISL.
Existe um substituto?
A resposta que encontro hoje é: existem vários eventos importantes, mas não vejo um substituto único para aquilo que o FISL representava.
O Latinoware talvez seja uma das iniciativas que mais se aproxima dessa ideia de grande encontro de tecnologias abertas.
O evento continua ativo e, em 2026, chega à sua 23ª edição, reunindo temas como Software Livre, Inteligência Artificial, IoT, Open Hardware, DevOps, segurança e outros assuntos relacionados às tecnologias abertas.
Existe também o FLISOL, que segue uma lógica diferente.
Em vez de concentrar tudo em um grande evento nacional, ele espalha atividades por diferentes cidades e comunidades.
Essa característica é muito interessante porque aproxima o Software Livre das comunidades locais.
Também existem novas iniciativas tentando reorganizar o movimento de Software Livre no Brasil.
Ou seja:
não estamos diante de um movimento que simplesmente desapareceu.
Estamos diante de um movimento que mudou de forma.
Mas algo ainda ficou em aberto
É justamente aqui que começo a olhar para o assunto não apenas como alguém interessado na história da tecnologia, mas como profissional que continua trabalhando com tecnologia, sistemas, dados, inovação e transformação digital.
Sinto falta de um espaço capaz de juntar novamente essas diferentes perspectivas.
Porque hoje discutimos Inteligência Artificial em um lugar.
Dados em outro.
Software Livre em outro.
Governo Digital em outro.
Ciência Aberta em outro.
Propriedade Intelectual em outro.
Geotecnologia em outro.
Mas os problemas reais não estão separados dessa maneira.
Quando desenvolvemos uma solução tecnológica para o setor público, por exemplo, precisamos pensar simultaneamente em software, dados, interoperabilidade, segurança, propriedade intelectual, governança, sustentabilidade e soberania tecnológica.
É justamente nessa interseção que eu vejo uma oportunidade.
E se o FISL voltasse?
Não acredito que faria muito sentido simplesmente tentar recriar o FISL de 2010.
O mundo mudou demais.
Naquela época, algumas das discussões que hoje dominam a tecnologia ainda estavam começando ou nem existiam na forma atual.
Hoje, um novo grande encontro de tecnologias abertas poderia discutir:
Software Livre + Open Source
Inteligência Artificial aberta
Dados Abertos
Ciência Aberta
Open Hardware
Governo Digital
Soberania Digital
Privacidade
Cibersegurança
Geotecnologias abertas
Software Público
Interoperabilidade
Propriedade Intelectual
Inovação
Isso seria, na minha visão, muito mais interessante do que simplesmente tentar reproduzir um evento do passado.
Não seria uma volta. Seria uma evolução.
Talvez a pergunta esteja errada
Depois de pensar bastante sobre isso, talvez eu esteja fazendo a pergunta errada quando digo:
“Quando o FISL vai voltar?”
Talvez a pergunta mais importante seja:
“Quando teremos novamente um grande espaço de encontro para as comunidades de tecnologia aberta no Brasil?”
Porque o que fez o FISL ser importante não foi apenas o nome.
Não foram apenas as palestras.
Não foram os milhares de participantes.
Foi a capacidade de criar conexões.
Uma pessoa conhecia outra.
Um estudante encontrava uma comunidade.
Um desenvolvedor descobria um projeto.
Um pesquisador encontrava um parceiro.
Uma empresa encontrava talentos.
Um gestor público conhecia uma tecnologia.
E uma ideia que começava em uma conversa poderia transformar-se em um projeto.
Esse tipo de coisa é difícil de medir.
Mas é justamente aí que reside o valor de uma comunidade.
O legado
O FISL terminou sua trajetória, pelo menos até agora, em 2018.
Mas as ideias que ajudou a disseminar continuam presentes.
Hoje, quando falamos em software aberto, dados abertos, ciência aberta, inteligência artificial aberta ou soberania tecnológica, estamos discutindo problemas que têm relação direta com aquela antiga discussão sobre liberdade tecnológica.
A tecnologia mudou.
Os nomes mudaram.
As ferramentas mudaram.
Os modelos de negócio mudaram.
Mas algumas perguntas permanecem.
Quem controla a tecnologia?
Quem pode conhecê-la?
Quem pode modificá-la?
Quem controla os dados?
Quem participa da construção dessas soluções?
Talvez seja esse o verdadeiro legado do FISL.
Ele nos ensinou que tecnologia não precisa ser apenas produto.
Pode ser também conhecimento, colaboração, comunidade e liberdade.
E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, ainda exista gente perguntando:
“E o FISL, o que aconteceu?”
Eu acho que essa pergunta é importante.
Não necessariamente porque precisamos recuperar um evento.
Mas porque talvez ainda precisemos recuperar o espaço de encontro que ele representava.
E, em um mundo cada vez mais dependente de software, dados e Inteligência Artificial, acredito que essa discussão está apenas começando.
1 comentário
Monstro disruptivo!!!
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